Por que a economia cresce, mas o dinheiro não sobra?

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Os dados e tabelas mostram que o Brasil passa por um momento econômico bastante positivo, com queda do desemprego e aumento da renda média. Entretanto, para muitas famílias, a sensação é de que a conta simplesmente não fecha.

Como explica a economista Juliane Furno, o cenário atual é marcado por um grande “descompasso”: existe uma falha grave na tradução dos números do PIB para o bem-estar social.

A percepção de piora econômica, mesmo com a inflação sob controle, é o reflexo de uma renda que cresce no papel, mas é drenada antes mesmo de chegar à despesa.

Quando os dados não enchem o prato

Esqueça os manuais que mandam apenas “cortar o cafezinho”. Em 2026, a educação financeira tornou-se uma ferramenta bruta de sobrevivência. Segundo Victor Pagani, diretor adjunto do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), as famílias brasileiras operam hoje sob uma “estratégia de guerra”.

“Para quem ganha perto de um salário mínimo, cortar gastos significa cortar serviços essenciais como água/luz/gás ou cortar a própria alimentação. Então, não tem de onde cortar”, pontua Pagani. “Somado a isso, tivemos o advento das bets, totalmente desreguladas, e que provavelmente contribuíram para o aumento dessa situação de endividamento das famílias, sobretudo das mais pobres”.

Dentro desse contexto, a educação financeira não está nos conceitos transmitidos por muitos economistas e especialistas nas redes sociais, e sim na decisão entre os gastos essenciais e urgentes.

É a adoção de táticas como frequentar a “xepa” da feira, ou substituir a compra de alimentos frescos por ultraprocessados, mais baratos e menos nutritivos, ou gerenciar o atraso de contas de consumo — como água e luz — em um rodízio perigoso para evitar o corte de serviços básicos enquanto tentam escapar da “bola de neve” dos juros.

A fotografia atual das finanças domésticas mostra o tamanho do desafio estrutural que enfrentamos:

Percentual de famílias endividadas: 80,2% (maior nível desde 2010).
Percentual de inadimplentes (contas em atraso): 29,6%.
Comprometimento da renda com o serviço da dívida: 29,2% (quase um terço do salário vai direto para o sistema financeiro).

(Fonte: CNC/Bacen, Fev/2026)

A Taxa Selic: a “visita indesejada” no orçamento familiar

Recentemente, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano. Embora o movimento pareça positivo, ele carrega um peso histórico: foi o primeiro corte desde maio de 2024. O Brasil ainda ostenta um dos maiores juros reais do mundo, funcionando como um freio de mão puxado para quem precisa de crédito.

A Selic alta impacta diretamente o seu dia a dia:

Encarecimento do crédito: Empréstimos como CDC, consignados e financiamentos de veículos permanecem proibitivos.
Impacto no custo das dívidas antigas: A queda lenta da taxa básica não alivia de imediato o estoque de dívidas já contraídas, dificultando a quitação.
Desestímulo ao emprego e investimento: Com juros altos, as empresas investem menos, travando a criação de postos de trabalho e a circulação de riqueza real.

Um dado técnico explica visualmente por que o aumento do salário não é sentido de fato no bolso da população: a “boca de jacaré”. Desde a pré-pandemia, o rendimento médio real do brasileiro cresceu 12%.

No entanto, após o pagamento de dívidas com o SFN (Sistema Financeiro Nacional), esse ganho real despenca para apenas 3%. Ou seja: 9% de todo o ganho real de rendimento da população foi “engolido” pelos bancos e financeiras.

Na prática, o esforço do trabalhador para produzir e ganhar mais não resulta em consumo ou poupança, mas serve para alimentar o rentismo. O SFN “capturou” a melhora da renda, impedindo que o crescimento econômico circule no comércio do bairro.

O cartão de crédito continua sendo o principal ralo financeiro, apontado por 85% das famílias endividadas como o grande problema. O cenário é alarmante: os juros do rotativo saltaram de 330% ao ano em 2021 para 425% ao ano em 2026.

“A gente fala muito da taxa Selic, mas quando a gente vai ver o real patamar dos juros elevados, a alta da Selic resulta em alta dos juros para pessoa física, o tomador do crédito final”, lembra Pagani, do Dieese.

“Se pegarmos a taxa de juros rotativa do cartão de crédito, em janeiro/26 segundo BC, ela estava em média 425% ao ano – e com a alta da Selic ela saltou de 330% em janeiro/21 para 425% em janeiro/26”, afirma o economista. “Mas também tem cheque especial, crédito consignado, consignado, crédito para compra de veículos, motocicletas, todas as taxas de juros aumentam quando BC aumenta a taxa Selic”.

É importante destacar que, embora exista um Teto do Rotativo de 100% implementado pelo governo, ele só vale para dívidas contraídas a partir de janeiro de 2024.

Isso explica por que a média de juros ainda é tão alta, já que o estoque de dívidas antigas continua sob as regras abusivas de outrora, asfixiando milhões de brasileiros.

Para enfrentar essa crise, o governo federal tem lançado mão de medidas para desafogar o orçamento das famílias:

Desenrola: Já promoveu a renegociação de R$ 53 bilhões em dívidas, beneficiando 15 milhões de pessoas.
Novo Programa de Reconciliação: Com foco em quem ganha até 3 salários mínimos, o programa prevê o perdão de até 80% das dívidas e refinanciamento do saldo com juros reduzidos.
Crédito do Trabalhador: Um robusto programa de consignado vigente desde 2025, que já movimentou R$ 117,1 bilhões, tentando oferecer uma alternativa ao crédito abusivo do varejo.

Dicas práticas de sobrevivência financeira

A educação financeira individual é um passo importante, mas ela não faz milagres diante de um sistema desenhado para concentrar renda.

A política de valorização do salário mínimo está no caminho correto, mas seu efeito é neutralizado pela “boca de jacaré” do sistema financeiro. É urgente que o Banco Central colabore com quedas consistentes e profundas nos juros e que haja uma regulamentação mais rígida contra os juros abusivos.

Sem essas mudanças estruturais, o suor do trabalhador brasileiro continuará servindo apenas para alimentar o lucro recorde dos bancos, enquanto o crescimento da economia segue sem chegar ao prato de quem mais precisa.

Para as famílias que estão no limite, a gestão financeira deve ser tática e analítica:

Priorização Absoluta: O foco deve ser a soberania alimentar e as contas que geram interrupção de serviço (água, luz e gás). A alimentação da família e a manutenção do teto são inegociáveis.
Troca de Dívida “Cara” por “Barata”: Se o endividamento no rotativo ou cheque especial é insustentável, buscar linhas como o consignado ou o novo “Crédito do Trabalhador” é o caminho. Contudo, fica o alerta: o consignado é uma ferramenta de alívio, mas não é milagrosa; as taxas ainda pesam e devem ser usadas com cautela extrema.
Uso Estratégico de Programas Sociais: O Bolsa Família e o Gás para Todos não são apenas auxílios, são pilares de manutenção da alimentação mínima. Use-os para proteger o prato de comida enquanto renegocia as dívidas bancárias.

Leia mais: Os erros de fiscalização do Banco Central no caso Master

Esta é mais uma reportagem da série Por Dentro do Sistema Financeiro, uma parceria entre o Jornal GGN e a Contraf-CUT que busca analisar por dentro do Sistema Financeiro Nacional.

Por Tatiane Correia, do Jornal GGN